Quando o medo de morrer virou vontade de viver?
Hoje, eu temo a morte porque, enfim, eu aprendi a amar estar viva.
"É incrível que, depois de tanto tempo desejando que eu morresse, agora o meu maior medo é morrer. E não só no sentido físico, no sentido medicinal. Morrer e perder tudo o que eu conquistei, tudo o que eu ainda tenho para conquistar. Morrer e perder quem eu amo e quem me ama reciprocamente." — Luiza Leoncio.
Às vezes, o mundo inteiro parece empurrar a gente para fora dele. Há silêncios que gritam mais do que qualquer coisa, há dias em que acordar é um esforço quase desumano. Durante muito tempo, a morte me pareceu não só uma saída, mas um alívio. E não falo isso com drama — falo com a frieza de quem já andou pelo fundo do poço e decorou cada pedra no caminho. Viver doía. Era como carregar um corpo que eu não reconhecia, como habitar um lugar onde eu não cabia.
Mas algo mudou. Não de forma espetacular, como num filme em que tudo se resolve num único gesto. Foi aos poucos. E, quando percebi, já fazia um tempo que eu não pensava mais em morrer. Agora, penso no oposto. Penso em tudo o que eu ainda quero viver. E o mais curioso é isso: quem passou tanto tempo desejando desaparecer, de repente se vê com medo de partir. Como se, só agora, finalmente, eu tivesse algo a perder.
Durante muito tempo, eu não queria mais estar aqui. Não necessariamente por raiva, nem por tristeza evidente, nem por grandes tragédias. Às vezes, era só cansaço. Um cansaço tão fundo que nem o sono curava. Um cansaço de mim, das expectativas, do peso que é viver em um corpo que sente demais, pensa demais, espera demais de tudo. Eu não queria mais viver — e, ao mesmo tempo, não queria morrer. Eu só queria não existir por um tempo. Pausar. Silenciar o mundo e me silenciar junto com ele.
Tive fases em que me sentia um erro. Um ruído fora do compasso. Achava que ninguém ia sentir minha falta, e isso era mais confortável do que admitir que talvez alguém sentisse. Porque se alguém sentisse, então eu teria que ficar. E eu não tinha forças para ficar. A dor era silenciosa, mas constante. Como uma goteira pingando dentro de mim, corroendo tudo devagar.
E o mais cruel é que por fora, às vezes, estava tudo bem. Ou parecia estar. Eu sorria. Respondia mensagens. Cumpria tarefas. A dor era discreta. E, por isso mesmo, mais perigosa.
Eu não sei exatamente quando a chave virou. Não houve um dia específico, nem uma revelação cinematográfica. Foi uma sucessão de detalhes. Pequenos gestos que antes passavam batido e, de repente, começaram a fazer sentido. Um abraço que durou mais do que o esperado. Uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Uma gargalhada espontânea que escapou antes que eu percebesse. Um dia em que o sol entrou pela janela e, por um segundo, eu me permiti sentir a luz sem culpa.
No começo, eu duvidei. Achei que era só mais uma trégua da mente antes da próxima tempestade. Mas, aos poucos, fui ficando. Um dia a mais. Uma conversa a mais. Um plano para o fim de semana. Uma playlist nova. Um livro emprestado. Fui ficando, mesmo com medo, mesmo com cicatrizes abertas. Fui ficando porque — de algum jeito — comecei a perceber que talvez ainda existisse vida dentro de mim. Uma vida que não era perfeita, mas que, aos poucos, me pedia para ser vivida.
Comecei a reconstruir o que tinha sido quebrado, sem pressa, sem promessas. Descobri que querer viver não é um estado definitivo, é um exercício diário. Uma escolha que, às vezes, a gente faz aos pedaços. E foi assim que nasceu o medo de morrer: do susto de, enfim, estar viva.
Hoje eu tenho coisas que eu não quero perder. E talvez esse seja o maior sinal de que eu sobrevivi. Tenho pessoas que me abraçam como se soubessem exatamente onde dói, mesmo sem eu precisar dizer. Tenho laços que não são perfeitos, mas são reais — e isso basta. Tenho planos, ainda que pequenos. Tenho vontades. Tenho medos que antes eu nem ousava sentir, porque sentir significava estar viva.
Tem dias ruins, claro. Tem recaídas, tem silêncios, tem um vazio que às vezes ainda aparece na madrugada e senta ao meu lado como um velho conhecido. Mas agora eu sei que ele passa. E eu fico. E nessa permanência, fui descobrindo amor. Por mim, pelos outros, pelo que eu construí e ainda quero construir.
Como disse Albert Camus: “No meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível.” É esse verão que me mantém aqui, mesmo quando tudo parece frio demais. Tenho orgulho da pessoa que estou me tornando. Não porque sou imune à dor, mas porque continuo aqui, apesar dela. Porque, depois de tanto tempo me preparando para ir embora, estou finalmente aprendendo a ficar.
E é por isso que hoje eu tenho medo de morrer. Não no sentido clínico — embora também. Mas no sentido de ir embora no auge da minha vontade de ficar. Medo de não ver o que mais posso ser. Medo de não abraçar mais quem eu amo. Medo de deixar histórias pela metade. Medo de partir agora que, enfim, comecei a voltar pra mim.
Não sei o que vem depois. Ninguém sabe. Mas sei que, por muito tempo, eu não via sentido em continuar. E agora, mesmo sem ter todas as respostas, eu quero continuar. Quero viver cada pequeno instante que antes me parecia banal. Quero rir do nada. Quero me apaixonar por detalhes. Quero escrever textos como esse e lembrar de onde eu vim, sem deixar que isso defina para onde eu vou.
Hoje, o medo de morrer não vem do desespero. Vem do afeto. Vem do amor que encontrei — e do amor que ainda quero oferecer. Vem do que estou construindo, mesmo com mãos trêmulas. Vem da consciência de que, depois de desejar tanto o fim, agora tudo que eu quero é mais tempo. Mais vida.
É incrível que depois de tanto tempo desejando que eu morresse, agora o meu maior medo seja exatamente esse: morrer. Não por covardia, mas por amor. Não por pânico, mas por presença. Porque agora, finalmente, eu estou aqui.
É inspirador ver como a transformação acontece nos pequenos detalhes, nos gestos simples que vão se tornando âncoras para seguir em frente. Também acredito que querer viver é um exercício diário, e reconhecer que a vida não precisa ser perfeita para valer a pena é uma grande conquista.
Que texto maravilhoso!!!
Agora eu me encontro muito emocionada após ler o seu texto amiga, você me fez refletir sobre a vida e como eu também tenho medo de morrer. Que lindo